Archive pour la catégorie ‘SEMAINE DE LA LECTURE’

Miguel Torga – A vida é feita de nadas

Vendredi 7 mars 2008

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A vida é feita de nadas
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

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La vie est faite de riens
[Miguel Torga]

La vie est faite de riens
D
e grandes montagnes paralysées
Qui attendent le mouvement;
De champs cultivés ondulés par le vent;
De foyers
Écroulés et plein de traces
De nids d’autrefois perchés
Des gouttières;
De poussière;
De l’ombre d’un figuier.
De voir cette merveille,
mon père donne forme à une vigne
comme une mère qui
tresse les cheveux de sa fille.

Espera – Sophia de Mello Breyner

Jeudi 6 mars 2008

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Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega credo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa prépria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene

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Attente 
[Sophia de Mello Breyner]

Je me couche tard
J’attends une forme de silence
Qui n’arrive jamais tôt
J’attends l’intensité la concentration de l’heure tardive
Ardente et nue
C’est alors que les miroirs resplendissent de leur deuxième éclat
C’est alors qu’on voit le dessin du vide
C’est alors qu’on voit soudain
Notre propre main posée sur la table

C’est alors qu’on voit le passage du silence

Navigation très ancienne et solennelle

Manuel Alegre

Mercredi 5 mars 2008

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Eu quero ouvir agora o grande canto subterrâneo
dos comboios eléctricos por dentro das palavras
a multidão descendo à pressa os corredores da alma
o saxofone lancinante na estação do Metro

Caminhámos tanto para chegar a esta
desolada paisagem interior

Cartas de fusilados: cantavam a Marselhesa
A minha geração nasceu da guerra
E viu crecer o cogumelo de Hiroshima
Vibramos tanto com Bogart em Casablanca
depois aprendemos a cantar Kalinka
Era o tempo das certezas redondas como abóboras
cada ano mais felizes em Koljós

Ainda entrámos a cavalo
com o Che
em Havana

Era o tempo da festa e da guerrilha
A revolução ia ser uma aventura
acreditávamos até na abolição da morte
Era o tempo em que a História parecia um comboio
rolando inevitavelmente para a Terra Prometida

E eis que vais só na carruagem dos rostos sem olhar
despojados perdidos no Reino de Múltiplo

Nunca mais entraremos
com o Che
em Havana

O Deus que está en Delfos continua sem oráculo
A Europa anoitece e só quem espera
verá o inesperado Assim falou
Heraclito

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[Manuel Alegre]

Je veux écouter maintenant le grand chant souterrain
des trains électriques par dedans les mots
la multitude qui descend empressée dans les corridors de l’âme
le saxophone lancinant dans la station du Metro

Nous avons tellement cheminé pour arriver à ce
paysage intérieur désolé

Lettres de fusillés: ils chantaient la Marseillaise
Ma génération est née de la guerre
et a vu croître le champignon à Hiroshima
Nous avons tellement vibré avec Bogart à Casablanca
après on appris à chanter Kalinka
C’était le temps des certitudes rondes comme des citrouilles
chaque année plus heureuses au Kolkhoze

Nous sommes même entrés à cheval
avec le Che
à La Havane

C’était le temps de la fête et de la guérrilla
la révolution allait être une aventure
nous croyions même à l’abolition de la mort
C’était le temps où l’Histoire ressemblait un train
qui roulait inévitablement vers la Terre Promise

Et te voici seul dans la charrue des visages sans regards
dépouillés perdus dans le Royaume de Multiple

Plus jamais nous n’entrerons
avec le Che
à La Havane

Le dieu qui est à Delfos continue sans oracle
En Europe la nuit tombe et seulement celui qui attend
verra l’inattendu
Ainsi parla Héraclite

Casapiano, uma questão de identidade

Mardi 4 mars 2008

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A semana da leitura em Portugal, convidou-me a percorrer as filas mais intimas da minha biblioteca. Onde guardo os “meus livros”. Aqueles dos quais só alguns podem perceber as palavras. Aqueles dos quais só alguns podem rir das palavras. Aqueles livros dos quais só alguns conhecem a história e o sentido das palavras. Porque, comme escreveu Maria Helena Coelho, ser Casapiano, é uma questão de identidade.

Confesso que senti uma emoção particular quando acariciei os meus livros preferidos. Os Gansíadas, de Sequeira e Silva; o dicionário do calão casapiano, uma compilação de Eduardo dos Santos, Manuel Passetti et Fernando Cardote, publicada em 1976 e o Cancioneiro das Ganseas gentes, 1992, de Maria da Conceição B. Reis Tavares, ex-aluna dos colègios 28 de Maio e de Nossa Sra. da Conceição, e actualmente professora na reforma, a quem tive a cortesia de telefonar, para que me autorizasse a publicar o texto “Provincias de Portugal”.

Provincias de Portugal

Sou a provincia do Minho
O jardim de Portugal
Natureza, o carinho
Me fez linda sem igual

Eu de Trás-os Montes sou
A Natureza bravia
Num tromco me colocou
De serras e penedias

Sou o Douro cuja a fama
É o vinhedo fecundo
E o seu nome proclama
Sem rival em todo o Mundo
Foi numa minha cidade
Que a pétria seu nome herdou
E o sol da liberdade
Foi la também que raiou

A Beira-Alta sou eu.
Meus bons paios e presuntos
Só quem inda não os comeu
É que não pesca do assunto.

A Beira-Baixa singela
Sou eu no mapa escondida
A alta serra da Estrela
É minha grinalda querida

Sou o Alentejo a maior
Das provincias portuguesas,
Nenuma me é supérior
Em lezírias e devesas.

Sou o Algarve a derradeira
A minha folha se irmana
Com a folha da figueira,
E o cristal do Guadiana.

Todas vòs sois minhas filhas
E todas vós irmãs sois.
No amor não há partilhas
Sejamos unidas pois.
[Portugal]

Tuas filhas te saudamos
Com amor vivo e leal
E orgulhosas nós chamamos
Viva, viva Portugal
[Provincias]

A Estremadura a Rainha
Das procincias sou feliz!
É numa cidade minha
A capital do país.
Fazem a minha glória
Sintra, Batalha, Belém
Síntese de toda a história
Que a nossa Pátria tem.