Dos Jerónimos ao «Estado Novo»

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A Casa Pia de Lisboa : Breve síntese histórica

Adérito Tavares
Professor na Universidade católica portuguesa (Lisboa)

 

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4.   Dos Jerónimos ao “Estado Novo”

Em finais de 1833, porém, a Casa Pia seria transferida para instalações que, não sendo ainda as ideais, tinham no entanto condições bem melhores: o Mosteiro dos Jerónimos.

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Em 24 de Julho de 1833, um pequeno exército comandado pelo Duque da Terceira conquista a cidade de Lisboa, abrindo caminho à vitória liberal na guerra civil. No ano seguinte, através de um decreto subscrito por Joaquim António de Aguiar, foram extintas todas as ordens religiosas masculinas e os seus bens confiscados pelo Estado. (Joaquim António de Aguiar ficaria, por isso, conhecido como o «Mata-Frades», injustamente, já que era um homem pacífico e incapaz de matar quem quer que fosse).

A instalação da Casa Pia nos Jerónimos, porém, nem sequer esperou pela expropriação do Mosteiro (habitado, aliás, por pouco mais que meia dúzia de monges). Um decreto de 28 de Dezembro de 1833, da Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, ordenava a transferência da Casa Pia para o nobre edifício.

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Camarata nos Jerónimos

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Refeitório dos Jerónimos 

Era nessa altura administrador da Casa Pia António Maria Couceiro. As dificuldades do país, mergulhado em convulsões políticas desde o princípio do século e varrido por uma impiedosa Guerra civil, não permitiram disponibilizar para a assistência os rendimentos necessários. Por outro lado, as próprias condições sociais originavam o aumento constante do número de crianças que afluiam à Casa Pia. A alimentação era deficiente, com as doenças consequentes, as instalações húmidas e desadaptadas, o ensino precário.

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Dom Pedro IV 

Em Abril de 1834, o rei D. Pedro IV visitou a Casa Pia. Não tardaria a ser promulgada uma ambiciosa reforma (em 9 de Maio de 1835) que procurava restaurar a Instituição Casapiana, devolvendo-lhe o prestígio que tivera no tempo de Pina Manique.

Todavia, não são as leis que fazem as obras. São os homens. E Couceiro não estava à altura do empreendimento.

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Passos Manuel 

Em Setembro de 1836, uma nova revolução leva os vintistas ao poder. Os vintistas (ou setembristas) eram a facção mais progressista do liberalismo, a «esquerda liberal», digamos. Liderado por Passos Manuel, o governo setembrista empreende uma série de importantes reformas culturais e pedagógicas, incluíndo a criação de liceus, escolas técnicas, institutos universitários, teatros, conservatórios, etc. E a Casa Pia também beneficiou deste dinamismo reformista.

Passos Manuel pediu ao seu amigo José Ferreira Pinto Basto, um esclarecido e dinâmico industrial, que aceitasse o lugar de administrador-geral da Casa Pia. Em boa hora o fez. Pinto Basto foi o novo Pina Manique de que a Casa Pia carecia urgentemente. A ele se deve o ressurgimento da instituição. Graças ao seu impulso, a Casa Pia ultrapassou o ponto de não-retorno, transformando-se numa verdadeira instituição nacional.

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José Ferreira Pinto Basto 

José Ferreira Pinto Basto nasceu em 1774, numa família de negociantes portuenses, originária, como o nome indica, das Terras de Basto. Boa parte da enorme fortuna que amealhou fê-la com o negócio dos tabacos. Foi um industrial empreendedor, possuindo fábricas de sabões em Alcântara e de moagens e soda em Aveiro. Mas foi a fábrica de porcelanas da Vista Alegre, por ele fundada em 1824, em Ílhavo, que fez com que o seu nome ficasse indelevelmente ligado à história da indústria portuguesa. A fábrica da Vista Alegre transformar-se-ia num verdadeiro ex-libris da produção ceramista nacional.

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José Pinto Basto desempenhou vários cargos públicos: foi deputado pelos círculos do Porto e de Aveiro, senador, secretário do Conservatório de Lisboa e administrador-geral da Casa Pia entre Novembro de 1836 e Agosto de 1838 (morreu em 1839).

A sua acção à frente da Casa Pia caracterizou-se por um extraordinário dinamismo, como aliás tudo quanto fez na vida. Milhares de crianças, muitas delas vítimas da guerra civil, acumulavam-se nos Jerónimos. Uma tarefa ciclópica o esperava. Recorrendo ao crédito que a sua respeitabilidade de homem de negócios lhe abria, não hesitou em pedir emprestado para investir na Casa Pia. Não se recusou, igualmente, a gastar do seu próprio bolso quando era necessário. Estabeleceu um regime alimentar abundante e sadio, chegando a criar uma padaria e um matadouro dentro da instituição. Vestiu dignamente os alunos, restabeleceu a farmácia, construiu novos edifícios, incluindo enfermarias e, por fim, procedeu à indispensável reforma pedagógica. Reorganizaram-se os «estudos gerais», o equivalente ao actual ensino básico e secundário (primeiras letras, Latim, Grego, Filosofia, Retórica, Matemática, etc.). O objectivo de Pinto Basto era, segundo as suas próprias palavras, transformar a Casa Pia num dos melhores estabelecimentos de ensino da Europa. Queria fazer com o barro vivo que eram as crianças da Casa Pia uma cerâmica ainda mais preciosa do que a da Vista Alegre.

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Banda da Real Casa Pia de Lisboa, 1905 

Prosseguindo uma tradição que vinha já do tempo da Casa Pia do Castelo, foram também criadas aulas de Música e oficinas, como as de alfaiate, sapateiro, ferreiro, latoeiro, etc., confirmando uma vocação pioneira no domínio do ensino técnico-profissional.

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sala de aulas 1957

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 aula de desenho

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courso de marcenaria

A própria administração da Casa Pia, nos breves anos de Pinto Basto, beneficiou da sua experiência de industrial e financeiro. Colocou nos principais lugares pessoas de confiança, incluindo alguns antigos alunos, estabeleceu normas seguras de gestão, criou, digamos, uma «escola» administrativa do estabelecimento. Quando abandonou o cargo, José Ferreira Pinto Basto deixava a Casa Pia com pés para andar. Ainda não era a Casa Pia de Pina Manique, mas o fundador não hesitaria em abraçá-lo e felicitá-lo pelo ressurgimento.

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Simões Margiochi

A segunda metade do século XIX, na Casa Pia, ficou assinalada pelas provedorias de José Maria Eugénio de Almeida e Simões Margiochi. É neste período que a instituição alarga as suas instalações para os terrenos anexos ao Mosteiro dos Jerónimos, cuja cerca, bem maior do que o espaço que actualmente pertence há Casa Pia, incluia toda a encosta do Restelo. A primeira Escola Normal portuguesa integrada na Casa Pia, começa a funcionar em 1878. Desenvolveu-se o ensino artístico e lançam-se as bases de uma prática desportiva que iria dar excelentes frutos no começo do século seguinte.

Em 1874, Filipe Simões, professor da Universidade de Coimbra, depois de visitar a Casa Pia, escreve na «Revista de Educação Física» : «Encaminhai-vos a Belém. Fareis apenas alguns quilómetros. Entrai na Casa Pia. Reparai nos trezentos rapazes que a povoam. Perguntareis a vós mesmos se estais ao pé de Lisboa ou a centenas de léguas de distância. Vereis crianças da mesma idade e da mesma raça das que se vos deparam nas ruas da cidade. Mas que diferença ! Todas fortes, com boas cores, largas de espáduas e de peito, musculosas, transluzindo-lhes no rosto a alegria e a saúde».

 

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Groupo Margiochi 1890 a 1900

Os alunos educados na Instituição na viragem do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, sob a orientação esclarecida de pedagogos da craveira de um António Aurélio da Costa Ferreira, nomeado Director da Casa Pia após o estabelecimento da República, prosseguiram no caminho da formação integral que sempre foi apanágio casapiano.

São estes jovens da belle époque que se tornam pioneiros, entre nós, de novos desportos como o futebol e o basquetebol, e lúcidos praticantes de outros desportos mais antigos, como o atletismo, a esgrima e a natação. E fundaram, para si e para os seus companheiros saídos da Casa Pia, um clube onde todos pudessem entregar-se livremente a essa verdadeira paixão pelo desporto – o Casa Pia Atlético Clube (1920). Continuavam, assim, a trilhar os caminhos que lhes tinham sido abertos dentro da própria Instituição.

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Com a depressão económica dos anos trinta primeiro e com a segunda Guerra Mundial depois, abriu-se um período difícil para a Instituição Casapiana, reflectindo, aliás, os problemas por que passava o próprio País. O tempo do Estado Novo foi, para a Casa Pia, um tempo de «apagada e vil tristeza», embora as gerações que a frequentaram tenham sabido encontrar estímulos nas dificuldades que sofreram. As centenas de jovens saídos da Casa Pia ao longo das décadas de pobreza estão hoje aí, moldados na dureza mas agradecidos a uma «mãe terna» que por todos repartiu com generosidade o pouco que tinha para dar. E singraram, nas artes, nas empresas, no ensino, na política, etc. E possuem, no mais alto grau, um fortíssimo espírito de solidariedade e de camaradagem, o belo espírito casapiano.

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Símbolos heráldicos que identificaram a Casa Pia
ao longo dos tempos

One Response to “Dos Jerónimos ao «Estado Novo»”

  1. Rui dit :

    Boa tarde

    Sabe onde posso encontrar mais informação sobre os símbolos heráldicos da Casa Pia de Lisboa, estava mais interessado no primeiro 1780 (1 da esquerda) Muito obrigado

    Atenciosamente
    Rui Alves